quarta-feira, 29 de junho de 2016
Figura de silêncio
Hoje rebateu em mim a vontade de escrever. De te escrever será? Não sei bem a razão, mas há um bom tempo eu tenho tido preguiça. Pra falar a real, devo estar inconscientemente resistindo. Bater nas teclas, sentir o som delas ecoando na madrugada traz lembranças de tempos recentes e reticentes. Hoje eu tenho batido outras portas, vibrado em outras frequências. Pra compreender meus estados graves, profundos, tenho me calado. Assim descubro que o silêncio é o mais grave dos sons. E como é forte. Só eu sei o que significa ficar insone com um não-barulho desses. É um zumbido dublado pela minha voz interna. Caótico, como o dono da voz. O silêncio é o espelho do som. Somente silenciando é que me deparo com o pior e o melhor de mim. Encontro-me mudo com a indecisão que me faz estagnado, com as tarefas incompletas, as mensagens que não tenho coragem de enviar, com a vontade de mandar o mundo inteiro à merda na autoridade de um cura receitando padre nossos ao fim de uma confissão. Quando eu calo a boca, me encontro às escondidas com a fome que me provoca sobrepeso, com a futilidade de ler fofocas e torcer pra times que só perdem. Tropeço na minha preguiça E-N-O-R-M-E de ler e escrever mesmo dando pinta de Homo Academicus. E por sê-lo também rebatizo-a de resistência, recalque ou qualquer freudismo que o valha. Mas no fim o velho tem razão. Quando eu fecho minha matraca só encontro: mal estar, falta e lembranças, lembranças, lembranças. Memórias que me envergonham, saudades que não deveria ter, pessoas que preferia deletar da mente como a última palavra que você jamais vai ler e nem saberá qual era. Sonhos tortos e torturantes. Ensaio conversas com gente que eu nem sei se eu vou topar mais durante a vida. Simulo situações hipotéticas e me masturbo hipocritamente. Então eu gozo, lavo as mãos, escovo os dentes, dou o play em alguma série bem tosca e dublada horrorosamente por uma voz que não seja a minha, de preferência. Só assim consigo dar as costas pra tela, viro pro lado na cama agarrado a um travesseiro pra fingir que tem alguém ali comigo na hora tardia de apagar. E por mais que eu finja que estou te abrançando como nos tempos em que dormíamos juntos pra te transmitir segurança, quem precisa de proteção no fundo sou eu. Porque não importa o que eu [não] faça, tudo não passa de um entretenimento doloroso ao correr dos dias. Uma tentativa vergonhosa de esconder o medo que eu sinto de um dia experimentar o silêncio pra sempre sem me saber importante pra algo ou alguém.
26/03/2016, 03h29min.
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