terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

CicATRIZ

Não há cicatriz sem ferimento. A pele em fibrose exige que um corte a preceda. Venho aprendendo sobre o assunto entre (re)talhos e entalhes desde o primeiro ar por mim inspirado. É certo que o mesmo provocara-me dor, espanto, choro. É também provável que, através deste, acreditaram-me saudável apesar de minutos antes me içarem a ferro, fogo e fórceps das entranhas em que eu bravamente resistia em deixar, mais por antever piores feridas ao longo da existência, do que por serem as tais uma pátria-mãe aconchegante; ou qualquer outro destes sentimentos patrióticos comuns àquela época. Meu querer sucumbiu ao de todos. Estava eu (quase)saudável e livre! Ou seria o doutor cumpridor de seu dever e mamãe a serem livres a partir de então...? De certo mesmo, só cicatrizes. Em mamãe e em mim, no doutor não. São tantas as chagas que, ao ligar-se uma a uma feito pontos é bem possível que se pinte um esboço de Guernica sobre minha pele. Decorei a posição de cada uma delas, bem como o proceder após nova ferida: 1) Não se censura o sangue. A hemorragia é necessária. 2) Lavar com água arde, passar Merthiolate dizem que não mais e o soro fisiológico é gélido. 3) Não se estanca o todo ferido com pó de café. Este só ameniza parte do problema. 4) À amputação não bastam os pontos fracos, somente os fortes ou os grampos cirúrgicos. 5) Os anti-corpos prevalecem! 6) Mesmo seguindo as anteriores, a dor dói. Bom mesmo é não se ferir. Porém pr'a essa lição o ensino não é público. Pior, é a vida - dita privada - implacável ao cobrar a mensalidade. Eu que não pago o seu preço acostumei a conviver com as feridas que, como previsto pelo meu eu-neném, só tenderiam a aumentar. Aumentaram. Tanto, que hoje somente meu corpo não basta para abrigá-las. Foi preciso que as feridas e sua família de cicatrizes migrassem de mãos dadas e em peso para a minh'alma. Lá ninguém alcança. Nem eu, nem você, nem o médico de mamãe. Os procedimentos supracitados já não funcionam, fazendo com que o sangue não estanque e que as cicatrizes tornem-se quelóides e que, cá entre nós, para poupar-lhes este nome pouco aprazível passei a chamar apenas de saudade.


Pedaço de mim - Chico Buarque


Àquela que há um ano brilha no meu palco-coração. Se hoje num exílio forçado, haverá um tempo em que (re)unidos seremos. Felicitações pequena!

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