domingo, 17 de fevereiro de 2013
Servidão
A janela do meu quarto
dá pros lados de um beco
sem saída
com entrada
pro futuro
para os músicos
que carregam em suas costas
instrumentos, acordes e sonhos
piso em seus paralelepípedos
almejando que notas musicais
libertem-se
da pedra
da sujeira
da imobilidade
das cores mórbidas
do horror do trabalho forçado
de ser para sempre e apenas, chão
mas todo dia ignoram-me
toco apenas o silêncio
aprendo que, na verdade, as pedras
é que me tocam,
castigam,
ríspidas, impiedosas
forçam-me os joelhos
trazendo a dor em uma bandeja
operárias da morte
como tudo e todos
conduzindo ao grande templo rosa
onde acotuvelam-se Mozart, Bach e Vivaldi
numa madrugada qualquer
eu ainda dou o troco neste beco metido
tomarei todos os tragos
com o dinheiro dos amigos
e numa das quatro estações
entediado e bêbado
tombo sem noção de equilíbrio
e miro um novo projeto de existência
serei eu também o chão
e, juro a estas pedras safadas
se só então fizerem música
eu de propósito - e puto
vou cagá-las com o meu sangue
pra provar a diferença
entre o homem e a matéria
humanos,
mesmo imóveis,
vingam-se
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