quarta-feira, 31 de maio de 2017
in trancetown
estou atrás da cortina
daqui o cheiro, o mofo
a morfina finda o amor
codifica dores indecifráveis
filtra cores dormentes
o prazer é um refletor
desfocado, difuso, luz negra
acentua os brancos da memória
mémoire ofegante, fole de morte
o que eu mato em mim?
o eu ou o Outro?
a outra?
eu odiamo a mulher
eu amodeio as mulheres
eu não quero existir
para não estar anjo
nem ser demônio
não ser sem sexo
eu ainda me pago
apagando num cinzeiro-divã
minhas dívidas
minhas dúvidas
minhas dádivas
minhas divas
minhas vidas
todos os meus clichês
minhas repetições
e as cópias mal feitas
abrem-se as ventanas da ilusão
o paucú se foi
estou no meio de uma ponte
frágil, velha conhecida
em eterna reforma e retorno
um olhar me julga
minha voz em fuga
silencia na travessia
e lá permaneço em transe
intransável, manancial de ecos
pura impotência de gozo
vias vazias, sinal verde
sou um continuum intransitável
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