De tanto andar pelos mesmos lugares todos os dias, meus pés já decoraram por onde ir. Sabem qual a melhor pisada para o pior dos obstáculos urbanos, seja pedra, buraco ou casca de fruta. Serelepes, adoram os dias de chuva intensa e divertem-se com o balé com que riscam o ar ao pularem de poça em poça. São crianças na plenitude da infância (apesar do tamanho 45!).
O que lá em baixo foi automatizado com o passar dos anos e ganho de quilometragem, não ocorre do mesmo modo na chamada janela da alma que em mim se encontra. Por ela nada passa despercebido. Diferentemente de meus pés que estão sempre em luta constante para desprenderem-se de quem os (su)porta e então chegarem logo ao destino, no peitoril de minha janela somente se debruça quem por mim é convidado!
Explico. Quando estou passageiro de meus pés, gosto de trocar olhares com outras pessoas. Não olhares furtivos. Olhares que escancarem verdadeiramente as janelas de nossas almas. Sinto-me mais humano (e menos passageiro) quando tal abertura ocorre. Como quem recebe a visita de alguém no período da tarde, sinto como se uma parte da pessoa que teve indiscretamente sua janela observada, tenha sido deixada em cima da mesa do café próxima à minha janela. Como quem se despede após a visita, não consigo deixá-la sair de mãos abanando e deposito minha parcela de mim ao lado da floreira de sua janela.
Pergunto-me o que acontecerá aos meus pés se alguma destas visitas resolver ficar e juntarmos nossas janelas? Será que continuarão o caminho de sempre ou seguirão por outros menos tortuosos? Bem, que não sejam inconvenientes e saibam tratar bem a visita ao menos...
Lady España - Lucio Godoy


0 comentários:
Postar um comentário