Faltam-me férias. Mas já foram muitas em outrora. Lembro-me nitidamente ainda criança das de verão. Pareciam intermináveis. Intermináveis, coloridas e sonoras. Tudo em minha volta explodia em cores e som. A grama tornava-se ainda mais verde. A cigarra, não contentando-se apenas em cantar, todas as manhãs oferecia um concerto de rock no melhor estilo Rolling Stones. Mas antes que a danada passasse a cobrar ingresso em nosso próprio jardim, papai vinha com a mesma solução todos os anos:
-Vamos para o Uruguai!
E lá íamos nós. Nem Punta del Leste, nem Maldonado. Tacuarembó. Papai gabava-se por esta ser "...a cidade natal de Carlos Gardel!!". Lá descobri que o Tango - produto tipo exportação Argentino - é na verdade uruguaio de quatro costados.
Minhas memórias de infância mais vívidas são tacuaremboenses. Guardo até hoje uma imagem da qual, acredito, não me divorciarei passe o tempo que for. Papai me colocava na garupa de uma bicicleta emprestada. Atravessávamos a ponte sobre o Arroio Tacuarembó e quando esta terminava, entrávamos numa pequena estrada de terra. Escoltados pela vegetação nativa, nos deparávamos ao final da trilha com um casebre de madeira que possuia uma chaminé exalando fumaça e aroma de chá verde.
Quem lá habitava era uma senhora cujo nome nunca soube. Recordo sua veste de todos os anos. Vestido negro com estampa rococó em branco. De sua face pouco guardei. Mas seus cabelos alvos feito algodão causaram-me tamanha impressão que acabei por decorar a posição de cada fio em seu solo capilar. Bem como a disposição das sílabas castelhanas de uma simples frase:
- Después de haber perdido sus manos, ella tocó la almohada.
Não me recordo o contexto e nem quem era ella. Mas posso afirmar com certeza que tal imagem fez de mim eclodir a mais fervente lava que um vulcão já produzira. Céus! Como não ter mãos e ainda assim tocar?! Seria um não ter coração e pulsar. Ter a lua apagada e feito um enamorado distraído, enluarar-se.
Naquele verão fomos embora de Tacuarembó e não mais voltamos. Não, não enjoamos da ponte, da senhora ou do Gardel. Faltam-me férias apenas. Mas não falta-me Tacuarembó. Ela permanece em minhas memórias.
Hoje penso compreender melhor a frase. Para mim o fato de tocar a almofada quando lhe faltaram as mãos tornara ella tão macia quanto a almofada. Transmutou-se ella em almofada. Que sigamos seu rumo. Se faltar pulsação, que viremos coração. Se o luar sucumbir, que nos tornemos lua.
Na redação de volta às aulas pude mostrar à classe o quanto aprendi sobre a ausência. Que mesmo sem mãos, toca-se. Que mesmo sem férias, há Tacuarembó.
Mar e lua - Chico Buarque


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