domingo, 10 de abril de 2011

Baby, isto não é uma carta de amor.


Isso de te ver assim ao longe já não quero.
É bom no começo, para serem os laços criados e os medos emudecidos.
Porém, ao passo que vamos afinando as afinidades o que mais se quer é tocar.
Feito as cordas e o violão. Somente no encontro de ambos faz-se música, toca-se.
É o que nos falta. Encontro.
Em meu eu-violão o tu-encordamento já está posto.
Afinado e a fim de tudo. De ser bossa, blues ou toada. Ora, mas o que nos falta então?
O sentir, o tocar, o humano.
O inalar dos perfumes a entrelaçarem suas notas e fragrâncias no ar, o escutar dos sotaques que se pretendem semelhantes num futuro breve, o adentrar na intimidade alheia através da janela dos olhos, o perceber-se semelhante e diferente querendo no fundo apenas unir-se ao outro.
A alma do violão é o humano. A alma do humano é o outro humano.
O que o move, lança à frente, conduz. O que o toca, o torna música e, em certo aspecto, o torna também violão.
Vinícius já nos descreveu "uma mulher chamada guitarra". Aqui me apresento como possibilidade de "um homem chamado violão". Trocadilhos à parte, é o violão (guitarra) um dos poucos instrumentos que exige ser abraçado, aconchegado e precisa de carinho para se fazer ouvir. O humano necessita do mesmo carinho e do mesmo humano para se fazer feliz.
Temo ter me perdido nas metáforas. Já não sei o que quero com tantas delas. Suponho ter vindo falar do que não quero.
Isso de te ver assim ao longe já não quero. Não.
Feito um espreitador a observar sua vítima ou um policial o seu suspeito? Não quero.
Não sirvo pra vilão, nem você pra mocinha de filme de suspense do Hitchcock.
Não silenciarei a ponto de que não percebas minha presença, nem te gritarei demonstrando desespero.
Agora, fingir te mal querer ou não querer para que percebas o quanto te... ? Não quero!
Sem mais rodeios? Quero a fome de quem bebe, a sede de quem come, a coragem de quem não tem nome. Quero essa simbiose sinestésica simples em toda sua complexidade que um dia atinaram chamar de paixão.
Do "coração do coração", te quero.

Mensagem - Cícero Nunes/Aldo Cabral
Cartas de amor - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). Por Maria Bethânia.




Citações: Cartas de amor. Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Uma mulher chamada guitarra. Vinícius de Moraes.

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