domingo, 28 de outubro de 2012

Optométrica


um poema nasce da dor
ecoa do delírio mental
um poema é demência
influência da ausência

um poema não é de paz
advém da luta, da rinha
urge, ofega, bate, afaga
poema não diz, contradiz

bom poema escarra, cospe
expõe vísceras, mau odor
vegeta em leito de UTI
respira só por aparelhos

duvide de um poema feliz
vasculhe bem suas quinas
há de encontrar sujeira
podridão, fauna lúgubre

poema excita, lubrifica
cheira a gozo, é lúbrico
penetra os olhos do corpo
tão fundo da carne tremer

por trás do raso do verso
há um moribundo pedinte
bêbado, agressor, tarado
cão sarnento, sangrado

há um viciado em tintas
cheirador de alfarrábios
fumante de vagas ideias
comedor de pão com nada

esperante do invisível
na rotunda do existir
a emprestar seu fitar
às vistas descoloridas

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